Mulheres e drogas: relações pessoais, sociais e tratamento

Mulheres e Drogas. Confira as recomendações da ABEAD para o tratamento resolutivo 

 

 

Alessandra Diehl e Selene Barreto, Analice Gigliotti, José Mauro Braz, Luís Guilherme, Maria Ângela Madeira Ribeiro, Ana Cristina de Melo, Ana Carolina Schmidt, Thais Simões, Margarida Inocência Constâncio, Ana Cecilia Petta Roselli Marques

Os dois levantamentos nacionais recentes sobre Álcool e Drogas (I e II LENAD, 2006; 2013) mostraram que 29% e 39% das mulheres ingerem bebida alcoólica frequentemente no Brasil, respectivamente. O padrão de consumo em binge (quatro ou mais doses em um intervalo mínimo de duas horas, semanalmente ou mais), aumentou 36% entre as mulheres, especialmente entre as mais jovens, muito maior que aquele encontrado entre homens. Em relação ao tipo de bebida alcoólica mais consumida, a cerveja é a mais consumida pelos dois gêneros em todo o país. Porém, mulheres consomem mais vinho em relação aos homens, mais drogas lícitas, principalmente anfetamínicos e benzodiazepínicos, hoje um dos países que mais consome clonazepam no mundo (CARLINI et al., 2006; NAPPO et al., 1998; NOTTO et al., 2002; INCB, 2009).

Vulnerabilidades Físicas, Biológicas e Genéticas

Apesar das taxas de consumo de substâncias de abuso entre as mulheres se aproximarem cada vez mais dos homens, elas ainda bebem menos, mas adoecem mais cedo e de forma mais grave – o efeito telescópico (ZILBERMAN et al., 2003; LARANJEIRA et al., 2011; DAVIS, 1998). Algumas diferenças entre os gêneros podem ser relacionadas ao fenômeno, como o menor volume de água corporal, o aumento da razão corporal gordura/água, a menor quantidade da enzima álcool-desidrogenase, responsável pelo metabolismo do álcool no estômago, e a interface do álcool com os hormônios femininos (estrógenos e progesteronas), que aumenta o dano hepático (GIGLIOTTI et al., 2007; KANDALL,2010).

Os estudos genéticos sobre alcoolismo envolvendo gêmeos monozigóticos mostraram maior influência genética nos homens do que nas mulheres, com hereditariedade estimada em 11% para mulheres (TUCHMAN, 2010; Hesselbrock et al., 2013). Usuárias de drogas ilícitas são mais prováveis de apresentarem uma família mais disfuncional e falta de modelos parentais de identificação do que seus companheiros homens em tratamento (GUIMARAES et al., 2009).

Vulnerabilidades Psicológicas e Psiquiátricas

O início do uso entre mulheres tem sido associado a um mecanismo de enfrentamento da timidez, da ansiedade, de baixa autoestima (ZILBERMAN et al., 2003a). Meninas adolescentes estão sob a influência da mídia em relação ao álcool, tabaco e anorexígenos, que associam o consumo à beleza, riqueza e sucesso profissional (NAPPO et al., 2002; BRAILIANO et al., 2005).

Os transtornos psiquiátricos tendem a ser a morbidade primária e a dependência, a secundária, ao contrário dos homens (ELBREDER et al.,2008; KANDALL,2010; ZILBERMAN,TAVARES, BLUME, 2003). O consumo de álcool e drogas também se encontra mais associado à comorbidades psiquiátricas como os transtornos do humor (mania e depressão), de ansiedade (pânico, fobias e transtorno do estresse pós traumático) e transtorno de personalidade borderline, um preditor de pior desfecho nos tratamentos (ZILBERMAN et al., 2003b).

Vulnerabilidades Sociais e Culturais

Apesar das conquistas das mulheres em relação à sua emancipação, ainda sofrem com a desvantagem social devido a uma cultura ainda muito preconceituosa e discriminatória: “a mulher não pode se embriagar”. Falta de apoio do cônjuge para o início de um tratamento e o sistema de saúde carece de serviços especializados (BRAILIANO et al., 2006; OLIVEIRA et al., 2005; ALMEIDA et al., 2009; ROSA, 2008). Assim, buscam menos o tratamento, fazem segredo sobre ele, os estudos científicos são raros, e o medo em relação à perda de seu papel de mãe e esposa é frequente (ZILBERMAN et al., 2003a; ZILBERMAN et al., 2003b).

O I Levantamento Nacional do Consumo de Álcool na população Brasileira (I LENAD, 2006) mostrou que os homens consumiam álcool em 38,1% dos casos de violência entre parceiros íntimos (VPI) e as mulheres em 9,2%. Com relação à percepção de consumo de álcool pelo companheiro/a, o homem informou consumo de álcool pela parceira em 30,8% dos episódios de VPI, e a mulher informou que o seu parceiro ingeriu álcool em 44,6% desses episódios (ZALESKI, 2009).

A relação de gênero, violência doméstica e drogas é bem estreita (FONSECA, 2009; RABELLO et al., 2007). Cerca de 43.1% das mulheres brasileiras já sofreram violência doméstica, versus 12.3% dos homens (ALMEIDA et al., 2009). O uso de álcool tem relação com agressão/violência sexual dirigida a parceiros íntimos, cujos agressores homens que relataram níveis baixos de pleno estado de consciência durante o episódio. No caso das mulheres dependentes de álcool e outras drogas estudos mostram que muitas se relacionam com homens também usuários, aumentando o risco de conflitos e violência, podendo muitas vezes o próprio cônjuge ser o fornecedor da droga, ou utilizar a mulher como moeda de troca com traficantes ou ainda, os cônjuges e outros familiares muitas vezes não toleram a condição de dependência da mulher e as agridem (ALMEIDA et al.,2009; CAMPOS et al., 2010).

Pesquisas com profissionais do sexo revelam que um dos principais motivos do consumo de drogas é a emoção/situação negativa vivenciada na prática da profissão (BUNGAY et al., 2010; DEERING et al., 2011). No caso de usuárias que inicialmente não se prostituíam, a troca de sexo pela droga se tornou uma estratégia para obtenção da substância (SILVA, 2000). Verifica-se a expansão do consumo de crack entre profissionais do sexo justificado pelo fácil acesso e baixo custo da droga, pela aceitação da troca do sexo pela droga, e pela preferência de clientes usuários de substâncias (OLIVEIRA et al., 2007; NAPPO et al.,2011).

Vulnerabilidades durante a gestação

Qualquer consumo de droga durante a gestação, principalmente no primeiro trimestre, pode causar alguma alteração na formação do feto, provocando diferentes graus de lesões, abortos espontâneos ou mortalidade perinatal, pois tais substâncias atravessam todas as barreiras biológicas, como a placenta (vulnerabilidade fetal) (LIMA, 2008; LIMA, 2013).  O álcool e o tabaco são as drogas lícitas que mais estão associadas às malformações orgânicas, principalmente, as neurológicas (cerebrais), como por exemplo, a Síndrome Alcóolica Fetal (SAF). Segundo dados de estudos americanos e europeus, a incidência de SAF varia entre 2 e 10 casos por 1.000 (mil) nascimentos vivos (LIMA, 2013, LIMA, 2018). A situação no Brasil é preocupante, levando-se em conta que a cada ano surgem cerca de 3 milhões de mulheres grávidas no país, e que pelo aumento constante do número de consumidores de bebidas alcoólicas, e utilizando a incidência esperada, surgem no Brasil a cada ano, cerca de 30 mil casos de SAF (LIMA, 2008; LIMA, 2013).

Aspectos Relacionados à Sexualidade

Na sexualidade da mulher usuária de álcool e outras drogas há de se considerar ainda dois outros aspectos importantes: o aumento do número de parcerias sexuais sem proteção, e consequentemente, infecções pelo vírus HIV, gestação não desejada, principalmente entre adolescentes, trazendo um imenso ônus psicossocial tanto para meninos quanto para meninas (SANTORO & LOPES, 2013; NAPOLI et al., 2010; SANCHEZ et al., 2013). Gestantes usuárias de drogas têm prevalência de comportamentos de risco específico e o risco adicional de transmissão perinatal do HIV (NAPPO et al., 2011; NAPPO et al., 2001; BRASILIANO et al., 2006).

A prevalência de 34.2% sintomas de disfunção sexual em uma amostra nacional de mulheres com doença relacionada com a substância psicoativa foi comum e comparável a outros estudos relatados em todo o mundo, que relataram taxas de prevalência de sintomas de disfunção sexual feminina de 12-63%. (DIEHL et al., 2013). Apesar de que a disfunção sexual feminina foi investigada em grupos de mulheres com vários problemas de saúde (síndrome dos ovários policísticos, diabetes, HIV e câncer de mama), as mulheres com transtorno por uso de substâncias representam uma população única para fatores de vulnerabilidade e que continua a sofrer das baixas taxas de detecção e acesso limitado ao tratamento para questões relacionadas as disfunções sexuais (DIEHL et al., 2013). Com relação a orientação homoafetiva em mulheres cabe mencionar que várias pesquisas têm mostrado que lésbicas estão sob risco elevado para o beber nocivo ou perigoso, são menos prováveis de se manterem abstinentes do álcool e entrar em processo de recuperação comparada às mulheres heterossexuais, assim como, menos prováveis de diminuir o consumo de álcool quando envelhecem e mais propensas a apresentarem problemas relacionados ao consumo desta substância (DIEHL, 2010).

Tratamento

Levando em consideração as características específicas associadas às mulheres e sabendo que buscam menos ajuda para as questões relacionadas às drogas, espera-se que na elaboração de políticas preventivas e assistenciais se observe as seguintes recomendações (ASHLEY et al., 2003; GREENFILD et al., 2007; DIEHL et al., 2012; BRASILIANO et al., 2006; LIMA, 2013):

  1. Treinamento de equipes multidisciplinares de saúde e educação para abordagens específicas;
  1. Prevenção voltada às meninas na educação Infantil e Fundamental e na comunidade;
  1. A adoção de equipe feminina, pois facilita a identificação positiva (“female role models”);
  1. A realização da detecção precoce nos serviços de atenção primária à saúde, tanto nos programas de Ginecologia, como de Obstetrícia (pré-natal) e Psiquiatria;
  2. A Assistência deve incluir nos programas as necessidade das mulheres como os temas de economia doméstica, relacionamento familiar, entre outros, e preparar-se para o cuidado dos filhos;
  3. Incluir nos recursos ligados à assistência, o suporte jurídico e social;
  4. Não existe nenhuma terapêutica específica para a SAF, mas a criança afetada e sua família necessitam de: intervenção precoce e seguimento aprofundado no pré-natal, antes dos seis anos de idade; estabilização da família; orientação contínua para a manutenção de ambiente estável (sem interrupção do acompanhamento com mudanças de residência), a monitoração do abuso sexual e/ou violência física;

 

 

Fonte: saude publicada

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